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VAI GEL OU CERA?
Oito da manhã. O celular toca e eu arremesso-o longe. Faço alguma firula e levanto. Ponho algum trapo por sobre os ombros, entupo um caneco de café e muito açúcar. Subo até a laje (carinhosamente apelidada de "lounge", por tratar-se de meu "chill-out room"), acendo o primeiro cigarro matinal e olho pro céu, meio azul, meio cinza. Apago bituca e meia, viro a última golada do café, dou uma última olhada pro céu e desço. Sem tomar Activia, o intestino funciona como um relógio, como diz o outro. Entre grunhidos defecados e pensamentos filosóficos sobre a vida, gasto uns vinte minutos. Espremo: as espinhas da testa, do resto do rosto, os pêlos encravados da barba, os cravos das costas, nessa ordem. Ligo o chuveiro e canto as mesmas 12 músicas de sempre (sim, meus banhos são longos, ecologistas, me processem!), enquanto ensabôo cabeça, tronco e membros, nessa ordem, deixando o cabelo pro final. Desligo o chuveiro e enxugo cabeça, tronco e membros, nessa ordem, deixando o cabelo molhado e pingando. Cotonetadas nos ouvidos até tossir (otorrinolaringologistas, morram de agonia!). Vou pro quarto, onde termino de me secar, de cantar e de tossir. Visto cueca, camisa, calça, meia e botas, nessa ordem. Volto ao banheiro, onde escovo os dentes e dou um tapa no topete. Corro até a sala, checo superficialmente as coisas que tenho que levar e saio. Entro no ônibus e descubro que esqueci alguma coisa, mas não sei o quê. Ignoro e começo a corrigir lições-de-casa. Duas horas e três conduções mais tarde, chego ao trabalho. Trabalho, fumo, trabalho, fumo, trabalho, fumo. Quinze minutos pra ir à padaria e comer a mesma torta de palmito rançosa de sempre, tomar a mesma coca-cola de sempre, ouvir a mesma piada de sempre da atendente e me irritar costumeiramente com a bosta do cartão com chip que nunca funciona da(s) primeira(s) vez(es). Trabalho, fumo, trabalho, fumo, trabalho, fumo. E lá se passaram nove ou dez horas. Uma hora de ônibus até o ponto de táxi do meu irmão. Apesar de avisar sempre com antecedência que estou indo, ele nunca está lá quando chego. Espero, fumo, canto, espero, fumo, canto. Ele chega, eu entro no carro. Eu falo mal do meu trabalho, ele fala mal do dele, aí falamos mal, cada um, do do outro. Atualizamos as fofocas, as notícias nacionais e internacionais, contamos uma ou outra piada sem graça e eu ligo o rádio. Chegando em casa, janto e perco um tempo lendo ou assistindo qualquer porcaria, sem prestar atenção alguma. Tiro botas, meias, calça e camisa, nessa ordem. Programo o celular pra tocar às oito e desabo na cama. Oito da manhã. O celular toca e eu arremesso-o longe. Faço alguma firula e levanto. Ponho algum trapo por sobre os ombros, entupo um caneco de café e muito açúcar... Será que isso pode ser chamado de rotina? O que diriam os especialistas? Que eu sou workaholic? Bom, tirando o relato acima, que se repete diariamente, faço sexo quinzenalmente, e mensalmente janto ou almoço com alguma amiga do passado. Nos feriados, eu revezo entre encher a cara e dormir. Aí, eu cansei, precisava mudar. Contrariando tudo e todos, cortei o cabelo. E não tô usando laquê.