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UM GATO PRETO CHAMADO VALENTINO
Engraçado como a gente só dá valor às coisas depois que a gente perde. Engraçado como a gente descobre que não era o que a gente queria, quando a gente consegue aquilo que tanto desejou. Engraçado como a gente usa a palavra "engraçado" pra coisas que não são nada engraçadas. Engraçado como a gente usa a expressão "a gente" quando na verdade quer dizer "eu". Na última quinta-feira, uma aluna vip, que estava sumida há tempos, ressuscitou, entrou em prantos e usou uma aula inteira pra desabafar. Seu patrão havia dito que teria de demití-la por que sua falta de fluência no inglês o atrapalhava. Ela queria saber como eu havia chegado à fluência e o que devia fazer para apressar o processo, pois precisava estudar, mas a água já estava batendo na bunda, como diz o outro. Ora, dizer, dizer mesmo, eu não disse quase nada. Só falei que facilitaria a vida se ela trocasse as palavras "preciso estudar" por "quero aprender"; ajudaria se ela efetivamente freqüentasse as aulas e fizesse o dever de casa; e que trocasse a uma hora reservada aos sábados para estudar inglês - e sempre protelada por ela - por cinco minutos diários religiosos, antes de dormir. O resto do tempo, só ouvi. E ouvi. E ouvi. Fiz algumas perguntas bestas que ela jamais faria a si mesma, como procedem os psicoterapeutas junguianos, e nada mais. Meu maior conselho era no fundo apenas uma questão básica de semântica, assim como as primeiras frases deste post. A aluna saiu sorridente, confiante e agradecida pela "aula" de vivência que eu lhe havia proporcionado. O difícil foi saber o que anotar no diário. "Atividade extra - terapia"? E esse foi o ápice do meu "dia dos namorados". Cerveja e sexo não fazem mais o mesmo efeito que antigamente. Sexta-feira, passei embaixo da escada e fui me divertir ao lado do inferno. Dinheiro injusto, mas bem gasto. De resto, risadas e os bons e velhos trocadilhos. Lá vem a semântica de novo. Tô de saco cheio da semântica. Virei do avesso hoje, e quis ser curto e grosso. Mas sou covarde demais pra isso. Problemas são como leões: é tão mais fácil alimentá-los que matá-los! Por isso estou fechado pra balanço. Talvez deva trocar a ração deles. Eu sei, leões não comem ração, comem coisas vivas. É que talvez não tenha mais nada vivo pra oferecer-lhes. Mas ó, tô amadurecendo. Cada vez mais, acho que sei menos. E alguém por aí disse que isso era bom. Mas isso também é só uma questão de semântica.
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