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COMPRANDO PASMADO E VENDENDO BOCA ABERTA
Eu ia relatar minha primeira ida a um templo de umbanda (terreiro de macumba pros leigos) de forma poética e descritiva, à la Machado de Assis. Mas o Allex, jornalista, que já trabalhou com Alvaro Garneiro ("Esse ainda não é o meu blog") e tem vergonha disso; fã e amigo de infância da Rosana (lembra dela? "como uma deusaaaaaaaa...."); com sua curiosidade latente e perguntas apropriadas, não intencionalmente facilitou meu trabalho pelo msn. O resultado foi tipo uma entrevista daquelas páginas amarelas da Veja. Acompanhem:
Allex: Conte-me tudo, não esconda nada.
Mario: Tive 3 sensações básicas: 1. Que estava numa missa católica; 2. Que estava no teatro; 3. Que estava na fila do Inamps.
A: Por que uma missa católica? Havia algum guia conversando com o povo? Tipo uma pregação / sermão ou algo assim?
M: Não, a forma como o "público não iniciado" interagia era igual às beatas da igreja antes da missa. Os papeizinhos colados na parede, os banquinhos apertados, o senta-levanta dos ritos, as orações, tudo lembrava a igreja católica.
A: E por que num teatro? Você pescou artificialidade nos "incorporados"? Você achou que os santos eram um truque?
M: Não necessariamente. Não é que fosse "um truque". Na verdade tem dois aspectos: o primeiro é que a coisa toda dos cantos, batuques e incorporações, me lembrava muito espetáculos de danças teatrais "de raiz", sabe do que eu estou falando?
A: Sei, óbvio... Mas por isso vc já esperava, vai?
M: Não, eu não fui com "preconceitos", como vc disse. [NO DIA ANTERIOR ELE HAVIA ME DITO QUE EU ESTAVA INDO COM PRECONCEITOS POIS NÃO PENSAVA NA POSSIBILIDADE DE UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL INTERESSANTE]. Fui completamente aberto, pra analisar friamente cada detalhe, sem influências externas. Então, não estava "esperando" nada. Só acompanhando.
A: E o segundo aspecto?
M: O outro aspecto é que os "oguns, exus, caboclos" ou sei-lá-o-que eram sincronizados e padronizados demais pra serem reais. Não que eu seja expert em coisas extra-físicas, mas parto do princípio de que se realmente fossem "espíritos" ou coisa que o valha, as "manifestações" seriam aleatórias e variadas.
A: Mas eles justificam isso, alegando que tem uma ordem pré-determinada por um guia espiritual, que organiza tudo...
M: Bom, pra mim essa justificativa não faz o menor sentido. Agora, não acho que seja truque ou fingimento ou charlatanice.
A: Você acha que seja um estado de psiquê em que as pessoas acreditam realmente que estão fazendo aquilo?
M: Sim, pra mim é tudo auto-sugestão. Deu pra ver que eles realmente acreditavam naquilo. Não me pergunte por quê, mas uma pessoa que não tem fé, a reconhece a quilômetros de distância.
A: Entendi. Ou seja, não lhe acrescentou nada.
M: Claro que me acrescentou! Como experiência, cultura, conhecimento de mundo... Que era justamente o que eu esperava. Não passou pela minha cabeça que fosse acreditar em nada ou até mesmo incorporar um caboclo.
A: E quando você se refere ao Inamps, quer dizer a hora de tomar os passes?
M: Sim, quando terminou, parecia mesmo a fila do Inamps. Havia pessoas de branco com pranchetas nas mãos chamando nomes; pessoas, umas mais doentes que as outras (tinha até um senhor paraplégico, quase vegetativo) esperando, esperando, esperando... E uma demora angustiante. Quem esperava, mesclava entre reclamar da demora e do atendimento, e ir e voltar do bebedouro compulsivamente. Totalmente Inamps!
A: Quanto tempo isso levou? E por que você estava esperando?
M: Levou uns 40 minutos, foi porque minhas amigas iam tomar o passe e uma delas estava passando mal (espiritualmente falando).
A: O que mais te chamou a atenção?
M: Dois detalhes me chamaram muito a atenção: Em uma parede, um balancete bem rústico, numa folha de caderno, feito a bic, constava: Entradas: 3.000 e poucos reais; Saídas: 4.000 e poucos reais... E bem grande o déficit de 700 e poucos reais. Em outra parede, um diploma. Não deu pra ver do que era.
A: Ou seja, tem uma grana rolando ali...
M: Pelo contrário! Eles não conseguem pagar as próprias despesas. O que achei interessante foi a forma de constranger os "não contribuintes", colocando bem grande os -700.
A: Tipo, igreja evangélica arrecadando...
M: Não, nada a ver com igreja evangélica. Até porque ao lado do diploma tinha um cartaz enorme falando: "Não cobramos nada pelos trabalhos, mas temos despesas, portanto agradecemos colaborações". E falando em constrangimento, houve um momento bastante divertido. Antes da "gira" começar, a "madrinha" do "templo" (esses termos me matam), deu um esporro nos "guias" em alto e bom tom, dizendo que eles eram muito porcos... Falou que o vestiário masculino estava uma carniça, que ela ia ter que derrubar e construir de novo... Que tinha um monte de tênis fedendo jogado por aí e que se não aparecesse dono ela ia jogar no lixo... Mandou inclusive que eles tomassem banho antes de ir pra lá. Que gente fedida no templo ninguém merecia. Ficou uns 10 minutos com isso, antes de abrirem as cortinas (mais uma referência teatral... cortinas...).
A: Affe! Que nojo... Que mais?
M: Fora isso, algo que me surpreendeu foi o fato de eu, fumante inveterado, ter ficado incomodado com a fumaceira de charuto, de tão forte que era.
A: Eles fumam mesmo... E bebem, né?
M: Não bebiam porque não era "gira de esquerda". O homenageado da noite era Oxossi.
A: Você voltou expert em santos e orixás...
M: Ora, a idéia era essa! Se eu ainda estivesse na faculdade, teria feito um relatório de atividade complementar. É inevitável, toda experiência nova é "fichada" em detalhes no meu cérebro... Não consigo deixar de ser frio e analisar "cientificamente" as coisas... E as pessoas, por extensão. A vida pra mim é uma grande tese de mestrado...
A: Maravilha! É assim que os inteligentes fazem! Sua leitura das coisas é sempre uma delícia!
M: Obrigado! Esteja sempre às ordens! [MENTIRA, EU NÃO DISSE ISSO! HAHAHAHA]
Mario